Mata Atlantica
13/2/2006

Estamos tão acostumados com paisagens urbanas
e grandes plantações e pastos que parece
lenda dizer que uma floresta exuberante ocupava grandes
espaços no litoral, serras e interior do Brasil.
Mais fantástico ainda é saber que, apesar
de fragmentada e praticamente restrita a lugares inacessíveis(como
as serras), a Mata Atlântica ainda abriga uma
das maiores biodiversidades do mundo e influencia a
vida da maioria dos brasileiros, mesmo sem que estes
a conheçam ou percebam o seu devido valor.
A Mata Atlântica exerce um enorme fascínio àqueles que percorrem o seu interior.
Impossível não ficar maravilhado com a diversidade de formas e cores das suas
plantas, com os seus odores e sons variados, com os pequenos córregos e as cachoeiras.
Poucos lugares na Terra abrigam tantas formas de vida: são milhares de espécies
de animais, plantas e microorganismos, muitas delas ainda nem descritas pela
ciência. Por toda esta biodiversidade, a Mata Atlântica foi declarada pela Unesco
como Reserva da Biosfera, um Patrimônio da Humanidade.
No seu sentido mais amplo, a Mata Atlântica é um bioma com várias
formações vegatais. Antes da colonização, abrangia
cerca de 15 % do território brasileiro, ocorrendo ao longo da costa ,
do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e estendendo-se por centenas de
quilômetros continente adentro, nas regiões Sul e Sudeste, chegando
à Argentina e ao Paraguai.
A origem da Mata Atlântica está associada à separação
dos continentes americano e africano( eles formavam um único continente
chamado Gondwana), iniciada há mais de 100 milhões de anos, quando,
devido a processos geológicos, surgiu a cadeia de montanhas que formam
as serras do leste brasileiro.
As cadeias montanhosas constituíram uma barreira para os ventos carregados
de umidade que vinham do oceano. Sob a forma de névoa
ou chuva, a umidade ajudou a criar as condições
necessárias para as formações vegetais,
que originaram parte da Mata Atlântica, instalarem-se
e evoluirem.

A atual grande biodiversidade da Mata Atlântica formou-se ao longo de dezenas
de milhões de anos atrás, sendo que o evento dos refúgios pode ter contribuído
para aumentar essa biodiversidade. Segundo a teoria dos refúgios, durante o
período entre 2 a 4 milhões de anos atrás, o globo começou a sofrer prolongadas
estações de frio (eras glaciais), quando a Mata Atlântica encolhia e, consequentemente,
isolava-se de outras floresta, para depois se expandir nos intervalos de calor.
Nesses sucessivos isolamentos, a fauna existente na época teria se refugiado
nos fragmmentos remanescentes(chamados de refúgios). Assim, a mesma espécie
teria ficado dividida em diversos refúgios separados por barreiras ecológicas,
sendo submetidas a diferentes condições de sobrevivência. Cada uma delas teria
sofrido especiação (mecanismo evolutivo que leva à formação de espécies). Quando
as condições climáticas voltaram a ser as mesmas, as barreiras ecológicas desapareceram,
as matas uniram-se novamente e as espécies, separadas por longos períodos, voltaram
a conviver. No entanto, em muitos casos, a especiação havia sido tanta que a
mesma espécie original já não tinha mais compatibilidade suficiente para que
ocorressem cruzamentos.
A água e a floresta

"A Mata Atlântica está intimamente ligada à água.
Quando a chuva cai na mata, as folhas diminuem a intensidade com que a água
chega ao solo, prevenindo a erosão e protegendo plantas muito jovens.
A água atinge a camada de folhas mortas do chão e, ao umedecê-la,
acelera o processo de decomposição. Infiltra-se, então,
pelo solo, alimentando o lençol freático até aflorar na
superfície, através dos "olhos dágua" ou nascentes.
Ao pecorrer este caminho vertical, a água vai sendo enriquecida com sais
minerais e substâncias orgânicas que serão incorporadas ao
solo. Essencial para a hidratação das células e fotossíntese,
a água no solo é então absorvida pelas raízes.
Além de milhares de pequenos rios perenes, constantemente alimentados
pela água da chuva, que afloram nos seus remanescentes, a região
da Mata Atlântica é cortada por rios grandes como o Paraná,
o Tietê, o São Francisco, o Doce,o Paraíba do Sul, o Paranapanema
e o Ribeira de Iguape, importantíssimos na manutenção do
clima, na agricultura, na pecuária e em todo o processo de urbanização
do País . Diversos rios que abastecem as cidades e metrópoles
brasileiras nascem na Mata Atlântica, beneficiando mais de 100 milhões
de pessoas.
Em alguns locais, onde predominam as rochas calcárias, os rios e a
água infiltrada no solo contribuem para a formação de cavernas,
podendo originar grandes complexos cavernícolas, como é o caso
da região do Vale do Ribeira no Estado de São Paulo.
Sem as florestas, a água perde a sua proteção, as nascentes secam, os rios
são assoreados, ocorre a erosão e perda de fertilidade do solo, mundanças no
clima local e a redução da biodiversidade.
Biodiversidade
Os números da riqueza natural da Mata Atlântica impressionam:50%
das espécies de árvores são endêmicas, ou seja, não
são encontradas em outro lugar do mundo. Este fenômeno chega a
70% no caso de espécies como as orquídeas e bromélias.
Estudos desenvolvidos por pesquisadores identificaram a ocorrência de
454 espécies de árvores numa área de um hectare localizado
no sul da Bahia. Esta descoberta supera o recorde anterior registrado em 1986
na Amazônia Peruana, que incluia 300 espécies por hectare, e revela
que a Mata Atlântica pode possuir a maior diversidade de árvores
do mundo.
Dentro da grande variedade de fauna existente na Mata Atlântica, algumas
espécies possuem ampla distribuição, podendo ser encontradas
em outras regiões, como nos casos da onça pintada, dos gatos-do-mato,
da anta, da queixada, de alguns papagaios, corujas, gaviões e outros.
No entanto, existe uma enorme quantidade de espécies endêmicas.
São os casos das cerca de 73 espécies de mamíferos e das
181 espécies de aves. Entre os anfíbios o número é
ainda mais surpreendente, das 280 espécies catalogadas, 253 são
consideradas endêmicas. Infelizmente, vários estudos já
revelaram que a destruição da floresta está provocando
o desaparecimento de muitas espécies, algumas que nem chegaram a ser
conhecidas pela ciência.
A diversidade não se limita às espécies de flora e fauna.
A Mata Atlântica também abriga um grande patrimônio étnico,
cultural, histórico, arqueológico, arquitetônico, construído
ao longo de séculos pelas comunidades tradicionais que viviam e vivem
na floresta como os indígenas, os caiçaras, os quilombolas e os
caboclos.
Esses povos da floresta podem ensinar muito sobre os usos que a enorme biodiversidade
pode oferecer para a humanidade. Hoje, 40% dos medicamentos, destinados a um
mercado consumidor mundial, são sintetizados ou produzidos a partir de
espécies naturais. Portanto, conservar a biodiversidade e respeitar os
direitos e os conhecimentos adquiridos dos primeiros grupos culturais do país
é, no mínimo, extremamente estratégico no mercado globalizado
atual.
Desafios Atuais
"O resultado de todo esse histórico de destruição
é uma fragmentação cada vez maior da Mata Atlântica
e a consequentemente redução da sua biodiversidade, seja pela
perda de áreas significativas que abriguem populações saudáveis
das várias espécies, seja pela diminuição das trocas
genéticas. Hoje, a Mata Atlântica está em péssima
posição de destaque, como um dos conjuntos de ecossistemas mais
ameaçados de extinção do mundo . Os principais fatores
de degradação e pressão são o veloz processo de
industrialização e consequente urbanização desordenada,
com as principais cidades brasileiras ocorrendo nas áreas que originalmente
eram de Mata Atlântica, e o consumo insustentável dos recursos
naturais.
Um dos grandes desafios atuais para a conservação da Mata Atlântica
é reverter o processo de diminuição da sua cobertura florestal
e garantir a proteção, a recuperação e, especialmente,
o uso sustentável dos seus recursos naturais. O desenvolvimento sustentável
tem sido apontado como a melhor forma de garantir a proteção da
diversidade biológica, a qualidade ambiental e o desenvolvimento social,
em bases que assegurem a importância das comunidades tradicionais e locais.
Um exemplo de manejo sustentável é o cacau. Cultivado há
milhares de anos pelos astecas, do México, e os incas, do Peru, o cacau
é uma árvore encontrada em estado silvestre na floresta tropical,
nas bacias do Orinoco e do Amazonas. O cacau começou a ser cultivado,
no Brasil, com sementes provenientes do Pará, em 1746. A produção
cresceu ano a ano, chegando a números exponenciais no início do
século XX, quando o cacau implantou-se no sul da Bahia até o vale
do Rio Doce, no Espírito Santo, em terras de Mata Atlântica, onde
continua até hoje. Ao contrário das práticas predatórias
historicamente utilizadas no Brasil, o cultivo do cacau foi introduzido pelo
sistema das cabrucas, que é o plantio feito em áreas sombreadas,
o que proporcionou a manutenção das árvores maiores e mais
antigas da mata .
Para se chegar ao desenvolvimento sustentável, é necessário
a participação de toda a sociedade, que deve perceber a importância
da Mata Atlântica e cobrar ações mais efetivas dos Governos
Federal, Estauduais e Municipais, do Legislativo e do Judiciário e também
auxiliar no desenvolvimento de projetos para a recuperação ambiental,
social e econômica que gerem alternativas de desenvolvimento compatíveis
com a manutenção e a conservação da Mata Atlântica.
A conservação da Mata Atlântica também depende
de um esforço individual de todos para a mudança de atitudes no
dia-a-dia e no padrão de consumo desenfreado, que leva ao esgotamento
dos recursos naturais. Todos podem colaborar escolhendo produtos que tiveram
menor impacto ao serem produzidos, como alimentos orgânicos, madeira certificada
ou de reflorestamento, entre outros, auxiliando em projetos de reciclagem, não
comprando animais silvestres, palmitos, orquídeas e bromélias
na beira de estradas e cuidando do meio ambiente do seu bairro e da sua cidade.
Hoje, existem mecanismos de políticas públicas que podem ajudar
na conservação do meio ambiente, como o plano diretor municipal
participativo, no qual a população pode e deve influenciar na
ampliação de áreas verdes e conten
Mesmo reduzida e muito fragmentada, a Mata Atlântica possui uma importância
enorme, pois exerce influência direta na vida de mais de 80% da população
brasileira distribuída em seu domínio. Ela regula o fluxo dos
mananciais hídricos, assegura a fertilidade do solo, controla o clima
e protege da erosão escarpas e encostas das serras, além de abrigar
patrimônio histórico e cultural e conter espécies que podem
ser usadas em produtos farmacêuticos, alimentícios ou para outros
usos. Por outro lado, a região da Mata Atlântica abriga belíssimas
paisagens, de valor cênico imensurável, cuja proteção
é indispensável ao desenvolvimento do ecoturismo."
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